Mulheres negras do Judiciário contam trajetórias de vida e luta contra as desigualdades

Você está visualizando atualmente Mulheres negras do Judiciário contam trajetórias de vida e luta contra as desigualdades
Arte: TJMA
Compartilhe

Em enaltecimento à Mulher Negra e à sua importância como construtora da história de um país especialmente miscigenado – composto por brancos, pardos, pretos, amarelos e indígenas, segundo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, o Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), por meio do Comitê Estadual de Diversidade e da Assessoria de Comunicação do TJMA, traz histórias e experiências diversas sobre a vida e atuação de mulheres negras na Justiça maranhense, em alusão ao Dia da Mulher Negra (25 de julho).

O Comitê Estadual de Diversidade foi instituído pelo presidente do TJMA, desembargador Lourival Serejo, e é coordenado pelo juiz Marco Adriano, com o objetivo de assegurar o respeito aos direitos fundamentais aos diversos grupos da sociedade, assegurando-lhes o acesso à Justiça contra qualquer tipo de preconceito e violência.

Adriana Sá Pinheiro

Adriana Pinheiro atua como auxiliar de Serviços Gerais na Comarca de Pinheiro. Ela conta que sua trajetória de vida, em uma sociedade ainda preconceituosa, é bem difícil e cheia de desigualdades, principalmente quando se refere à cor de sua pele. “Quando se faz diferença na cor da pele, geralmente, a capacidade é deixada de lado. Quando se é negro basta olhar no olhar das pessoas que já se vê o preconceito em qualquer profissão”, revela.

Apesar de todas as dificuldades já enfrentadas, Adriana Pinheiro confessa que tem muito orgulho de passar por todos os obstáculos que a vida e a sociedade oferecem à mulher negra. “Os desafios, com certeza, foram muitos, mas com muita força, fé e persistência foram vencidos”, disse.

Sobre seu dia a dia na Comarca de Pinheiro, Adriana Pinheiro afirma que é um desafio ainda ter que enfrentar preconceitos. “Já vivi situações de preconceito sim, na escola, no trabalho. É lamentável ainda vivermos num meio de preconceito racial e onde predominam as desigualdade sociais”, desabafa a colaboradora, deixando um conselho às mulheres negras para “nunca desistirem de lutar pelos seus objetivos e dizerem não a todo e qualquer tipo de preconceito”.

Maura Vieira

Amante da leitura – Maura Vieira, chamada carinhosamente por “Maurinha” por seus colegas de trabalho – lê em média cinco livros por mês, e tem como obra preferida “O perfume da Folha de Chá”, de Dinah Jefferies. Auxiliar de Serviços Gerais, presta um serviço primoroso na Assessoria de Comunicação do TJMA.

Como exemplo de mulher negra, nunca desistiu de lutar por seu sonhos e projetos de vida. “Sinto-me vitoriosa. Minha vida não foi nada fácil, sempre tive que trabalhar para conseguir as coisas, passei por várias situações difíceis, mas nunca desisti!”, afirma.

Sobre as conquistas na profissão e o enfrentamento de discriminação racial, Maura Vieira fala que tem um sentimento de gratidão a Deus, por tê-la permitido chegar até onde chegou. “Os desafios foram muitos, passei por inúmeras situações de preconceito em certos serviços, mas isso só me fez mais forte. Nunca desisti dos meus objetivos e quero mais conquistas ainda!”, diz, com entusiasmo.

Maura Vieira ressalta que, apesar da discriminação existente na sociedade, ela sempre tenta ver a vida com alegria, amor, esperança e dedicação. “Amo o meu serviço, gosto de trabalhar, gosto de estar na ativa e o Poder Judiciário me deu essa oportunidade”, frisa.

“Maurinha” revela que é preciso dedicação, amor e coragem, principalmente, quando se vem de uma família pobre e tem que sair para conquistar seus objetivos. “Digo para cada mulher que lute pelos seus sonhos, que nunca desista de suas conquistas, seja sempre você mesma, tenha humildade para seguir em frente, pois você é capaz de conquistar o mundo, só basta querer”, aconselha, concluindo que “independente de cor, classe, que todas as mulheres sejam respeitadas e reconhecidas por suas próprias conquistas e lutas. Todas nós, mulheres, lindas, negras, pardas, brancas, somos todas iguais perante a Deus”.

Aliciane (Alice) Sousa

Aliciane Sousa, conhecida como Alice, é colaboradora na Escola Superior da Magistratura do Maranhão (Esmam). Teve uma trajetória de vida, onde enfrentou diversas barreiras no caminho que a impediam de progredir, principalmente, profissionalmente, por ser mulher negra. “Mesmo com o patriarcado e o racismo predominante e ainda enraizado na sociedade, contribuíram muito para que barreiras fossem formadas diante da minha persistência de poder trabalhar e contribuir no sustento da minha família, já que o mercado sempre teve uma imagem do feminismo associado às mulheres brancas, de olhos claros, e cabelo lisos”, afirma.

Para Alice, ser negra em uma sociedade que ainda enfrenta as desigualdades consequentes do racismo a fez ter que lutar contra sentimentos de diminuição e incapacidade e enfrentar os desafios. “Muitas vezes, eu senti inúmeros sentimentos associados a minha cor de pele, por ser negra, eu me sentia incapaz, tive frustrações, sentimentos de derrota, enfrentei muitas dificuldades para arrumar um emprego, pois era nítido que o meu perfil não interessava ao mercado de trabalho. Só que pude perceber que o erro não estava em mim e, sim, na sociedade que até hoje escolhe perfis, age burocraticamente com um racismo institucional, que chega a deixar cicatrizes”, disse.

Como funcionária da Esmam, Alice Sousa ressalta que sempre faz o melhor para contribuir com o seu trabalho, “mas, sempre haverá em um local de trabalho, olhares preconceituosos, no entanto, sou uma mulher firme e forte, que sei o meu valor e nunca deixo esses olhares me abaterem. Agora, me acho privilegiada, pois tenho vários colegas de trabalho que são maravilhosos, que me respeitam e que fazem eu me sentir bem”, conta.

Alice Sousa finaliza, deixando uma mensagem de perseverança e força às mulheres negras: “seja forte, por você e pelas pessoas que dependem de você. Seja honesta com você mesma, a culpa nunca foi nossa, a nossa cor de pele não nos faz pior do que ninguém; os racistas têm que entender que somos todos iguais, devemos enfrentar e lutar por nossos direitos e, principalmente, denunciar o racismo e vencer todo preconceito que ainda existe na sociedade”.

Joselita de Oliveira Silva

Joselita Silva é funcionária na Comarca de Codó. Em breves palavras, ela afirma se sentir realizada pessoalmente e profissionalmente. “Diversos desafios enfrentei, tais como ser mãe muito cedo e ter estudado somente até a terceira série”.

Ela comenta que nunca se sentiu discriminada por ser mulher negra e sempre buscou enfrentar a rotina com muito trabalho e disposição. “O conselho que dou é lutar e nunca desistir, pois uma hora as coisas darão certo”, finaliza.

Fonte: TJMA