Tribunal de Goiás celebra primeiro casamento comunitário do Raízes Kalungas

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Fotos: Agno Santos - Centro de Comunicação Social do TJGO

Quarenta e quatro histórias e um sonho em comum: o de formalizar perante à lei a união de amor e companheirismo. Esse sonho foi realizado de forma coletiva no entardecer desta quinta-feira (25), em Cavalcante, na celebração do primeiro casamento comunitário do Projeto Raízes Kalungas – Justiça e Cidadania, do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). Reencontros de infância, amor à primeira vista e celebração conjunta de pais, filho e nora foram algumas dessas histórias.

“Este casamento coletivo nasceu para isso: para tornar possível o que o tempo, as burocracias e os custos adiaram, para incluir quem muitas vezes não tinha acesso, para transformar sonho em realidade”, declarou o presidente do TJGO, desembargador Leandro Crispim. Aos noivos, ele deixou votos de “que o amor se faça verbo e se traduza em cuidar, respeitar, compartilhar e apoiar e continue sendo escolha, dia após dia”.

Para o chefe do Poder Judiciário estadual, o casamento significa o Estado se fazendo presente com respeito. “É a Justiça chegando onde deve estar. É o Judiciário dizendo: vocês têm direito. Direito à cerimônia, ao nome no registro, à segurança legal. Direito à alegria. Direito à dignidade”.

Esse direito se concretizou para o casal Reis Pereira de Brito e Milton de Deus Coutinho com o apoio do Raízes Kalungas. Juntos há 29 anos, eles conseguiram, por meio do projeto, regularizar seus documentos e agora puderam finalmente se casar. “Era um sonho que fui deixando e agora surgiu essa oportunidade”, revelou a noiva. Pais de três filhos, Reis e Milton se casaram ao lado do filho, Nélio Pereira Coutinho, e da nora Sueli Ferreira Francisco, que estão juntos há cinco anos. “Acho que chegou uma fase da vida que ela abriu mão desse sonho. Estar dividindo com minha sogra esse momento é uma inspiração imensa. Estou emocionada, feliz e realizada”, revelou Sueli.

Celebração

A diretora do Foro da comarca de Goiânia, juíza Patricia Bretas, foi a celebrante do casamento comunitário. Ao cumprimentar as noivas e os noivos, a magistrada ressaltou que, neste momento, era preciso lembrar do caminho de resistência trilhado até aqui pelas comunidades quilombolas. “A história de vocês é marcada por coragem. Seus antepassados fugiram da escravidão, enfrentaram o mato fechado, o abandono, o esquecimento, mas nunca perderam a esperança. Construíram suas casas, suas famílias, suas tradições, seu modo de viver. E hoje vocês estão aqui firmes, celebrando o amor. Que a união de vocês seja como a comunidade Kalunga: forte, bonita, cheia de sabedoria, de fé e de amor”.

Quatro casais representaram os noivos no ato mais aguardado da cerimônia: o famoso “sim”! Entre eles a diretora do Foro de Cavalcante, juíza Isabela Rebouças Maia, e o empresário Erik Rebouças da Cunha Leoni.

Acolhimento pela comunidade

Inicialmente designada para celebrar e organizar a cerimônia coletiva de casamento dos casais das comunidades kalungas de Cavalcante e região, a juíza Isabela Rebouças surpreendeu a todos ao anunciar, durante uma reunião no fórum da cidade, que também aproveitaria a ocasião para se casar. Diante do espanto dos presentes, explicou que nada a diferenciava dos demais noivos e que a decisão era uma forma de honrar a comunidade que a acolheu com tanto carinho e onde já se sentia em casa. O noivo Erik Leoni aceitou prontamente o convite e, com isso, a juíza deixou o papel de celebrante para integrar o grupo de noivas.

“É uma emoção muito grande poder casar junto à comunidade, que há seis meses eu faço parte, junto com as pessoas da região que me acolheram maravilhosamente bem. Foi um dia de muita emoção, de muita felicidade, as noivas se arrumaram todas juntas, fizemos maquiagem, cabelo, todas no mesmo ambiente, conversamos, choramos, rimos, todo mundo nervoso, compartilhando quem estava tremendo mais. E é uma sensação ímpar, porque é incrível saber que hoje é um dia muito importante para mim, mas também é um dia muito importante para os outros 45 casais.”

Ao fazer uma distinção especial à juíza Isabela Rebouças, o presidente Leandro Crispim disse que “seu gesto não precisa de destaque. Ele fala por si só. É um presente o Poder Judiciário poder contar com pessoas como a senhora”.

Sim a distância

Para o casal Loiane Santos Dias e Uillian Paulino da Costa, o “sim” foi a distância. Ele, que é brigadista, foi convocado para uma missão em Mato Grosso e participou da cerimônia por videoconferência. “É um sonho sendo realizado, estar participando desse evento, feito pelo Raízes Kalungas e por todos os apoiadores. E meu marido hoje não está presente porque ele está em uma missão, mas nós temos uma oportunidade de fazer a videoconferência e esse sonho está sendo realizado. Muito obrigada a todos”, disse a noiva que está grávida de nove meses.

Conquista de direitos

O casamento comunitário marca as ações da última semana do Mês da Presidência 2025 em Cavalcante. Acompanhando o presidente Leandro Crispim nas atividades, o corregedor-geral da Justiça, desembargador Marcus da Costa Ferreira (foto acima), acredita que o casamento demonstra a evolução do Raízes Kalungas, uma vez que muitas dessas uniões foram adiadas por falta de documentação. “Em minhas experiências nas comunidades, observei que, em muitos casos, as pessoas eram marginalizadas, nasciam na comunidade, casavam-se sem reconhecimento e, por vezes, faleciam sem registro. Essa realidade está mudando. É de extrema importância que aqueles que residem em comunidades, que já constituíram família ou que agora oficializam seus relacionamentos tenham a oportunidade de serem reconhecidos como cidadãos dignos, merecedores de respeito e amor”, afirmou o corregedor-geral.

Fonte: TJGO

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