Se a transformação em uma cultura de paz passa por várias mãos, é pelas dos jovens que a luta se veste de renovação. E a educação, por meio da expressão artística e da escrita, é ferramenta poderosa na construção de uma sociedade mais igualitária. Na sexta-feira (28/11), os mesmos jovens que, por meio da pintura e da escrita, demonstraram seu compromisso com uma sociedade mais justa foram agraciados em cerimônia de encerramento deste ciclo do projeto “Arte para Transformar: cada traço, um ato de respeito às mulheres”.
A iniciativa é uma parceria entre a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), a Secretaria da Educação do Estado (Seduc), o Curso de Redação Prof. Diego Pereira e a Universidade Federal do Ceará (UFC), onde ocorreu a cerimônia. Nove estudantes de cada modalidade do concurso tiveram suas obras reconhecidas, com premiações como: smartphones, notebooks e livros do Prof. Diego Pereira, além de ingressos de cinema ofertados pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e um almoço oferecido pelo Hotel Sonata de Iracema.
O evento contou com a presença de Maria da Penha, ativista e grande nome no combate à violência contra a mulher, e a participação virtual da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, além da presidente da Coordenadoria da Mulher do TJCE, desembargadora Vanja Fontenele Pontes.
Para a desembargadora, o objetivo do projeto foi alcançado: deixar nos estudantes uma marca positiva sobre quem eles pretendem ser na sociedade. “Eu acredito muito na formação humana, e nós temos a oportunidade de formar jovens. O trabalho da Justiça, além dos procedimentos tradicionais, precisa também se voltar para a despotencialização do homem, pois a violência doméstica existe porque há o homem agressor”, explicou.
Na ocasião, docentes que se envolveram na iniciativa também receberam homenagens por meio de certificado de participação. A secretária da Educação do Ceará, Eliane Nunes Estrela, frisou que iniciativas como o projeto revelam talentos e contribuem para a reflexão. “Nós, professoras, professores e servidores, seguimos nesse trabalho importante junto ao tribunal de justiça construindo caminhos para o enfrentamento à violência contra a mulher”, disse.
A ministra Cármen Lúcia enfatizou a necessidade de uma transformação sociocultural e política para o efetivo combate à violência. “A lei é necessária, mas, como dizia Carlos Drummond de Andrade em seu poema, as leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. É preciso que a gente faça florescer outra sociedade na qual os direitos assegurados na Constituição sejam cumpridos, tenham eficácia jurídica e social. […] E, portanto, é preciso achar uma outra forma de nos educarmos e de educar nossas crianças e jovens, para que eles saibam que a partilha de direitos e deveres faz com que nós tenhamos realmente a realização desse valor supremo da fraternidade e da justiça”, destacou.
Durante o evento, Maria da Penha fez uma avaliação desta edição do projeto, que reuniu educação, arte, cidadania e compromisso institucional para que, desde cedo, meninos e meninas aprendam que respeitar mulheres é respeitar a vida. “Quando falamos em enfrentamento à violência doméstica e ao machismo, muitas vezes pensamos apenas nas respostas do sistema de justiça, mas a verdade é que nenhuma transformação duradoura se constrói apenas nos tribunais. A mudança profunda nasce na escola, nas conversas na sala de aula, nos projetos pedagógicos, na escuta qualificada, no incentivo ao pensamento crítico e no olhar atento de professores e professoras”.
Munida desse olhar atento, a gestora da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Matias Beck, Virgínia Vilagran Pinheiro, afirmou que o projeto contribui para a construção de uma juventude multiplicadora de um cenário de paz. Ela também ressaltou que, na escola em questão, houve uma representatividade forte de homens participando do projeto. “Vimos uma representatividade imensa de homens demonstrando seus sentimentos com relação à violência contra a mulher, e isso foi encantador, porque é uma temática em que a gente muitas vezes direciona o olhar para a vítima, mas precisamos também trabalhar com a juventude masculina”, frisou.
Vencedores
O aluno da Escola de Ensino Médio Dr. Gentil Barreira e vencedor do concurso de redação do 1º ano, Gabriel Braga, ressaltou a felicidade em participar do concurso e, sobretudo, reforçar os direitos das mulheres. “Na redação, busquei estruturar meus argumentos no constante aumento de feminicídios e relacionando isso com conceitos sociológicos”, destacou.
Das turmas do 2º ano, o vencedor das redações foi o aluno João Antônio de Sousa Rodrigues, da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Eusébio de Queiroz, com um texto que cita a ativista Bell Hooks. “É fundamental um projeto como esse nas escolas, porque permite ampliar essa luta contra a violência”, argumentou.
Usando uma frase de Rachel de Queiroz e citando a obra O Quinze em sua redação, a aluna do 3º ano da EEMTI Estado do Paraná, Flávia Lopes da Silva, obteve o 2º lugar. “Na minha redação, usei uma frase de Rachel de Queiroz sobre a literatura ser um dos caminhos mais poderosos para compreendermos e transformarmos a sociedade. Também pontuei o conceito de manterrupting (quando um homem interrompe desnecessariamente uma mulher, invalidando ou desvalorizando a sua opinião)”, lembrou.
Fonte: TJCE
