O 3º Encontro Estadual de Justiça Restaurativa começou no auditório da Academia Judicial, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com a participação de especialistas, magistrados, servidores, integrantes do sistema de justiça e representantes de 14 instituições. A iniciativa é organizada pelo Comitê de Gestão Institucional de Justiça Restaurativa (CGJR), do TJSC.
Ao dar as boas-vindas ao público e aos palestrantes, a desembargadora Rosane Portella Wolff, coordenadora do CGJR, afirmou que o encontro reforça o compromisso do Judiciário catarinense com a consolidação dessa política, fortalece as redes interinstitucionais e celebra o trabalho coletivo que, ao longo dos anos, deu “musculatura” a um projeto construído de forma integrada. “Por trás de cada conflito, há pessoas, histórias e possibilidades de reconstrução”, disse, e sublinhou que criar espaços seguros de escuta, diálogo e reparação é o centro da prática restaurativa.
A magistrada enfatizou a importância de cultivar a paz individual para irradiá-la nos ambientes de trabalho e reconheceu o esforço das equipes e das entidades parceiras que integram essa rede, agora fortalecida pela participação da Justiça Federal e do Tribunal de Contas. No encerramento da fala, destacou que cada passo, cada círculo e cada diálogo demonstram a coragem de transformar e de fazer diferente, renovando o compromisso coletivo com a dignidade humana.
Conferência inaugural
A antropóloga e psicóloga norte-americana Susan Andrews, autora de 12 livros, formada pela Universidade de Harvard e doutora pela Universidade de Greenwich, proferiu a conferência inaugural do evento. Com a experiência de quem já ministrou palestras em 42 países, ela manteve a atenção do público do começo ao fim.
Susan abordou a relação entre empatia, estresse e Justiça Restaurativa. Com base em pesquisas de psicologia, neurociência e medicina, mostrou que os preconceitos começam ainda na infância e moldam percepções ao longo da vida, criando barreiras para o diálogo e para a resolução pacífica de conflitos.
Ela observou que o mundo está perdendo a empatia por múltiplas razões, especialmente o estresse. “O estresse crônico reduz a empatia — tanto emocional quanto cognitiva — e afeta diretamente a capacidade de escuta, decisão e convivência”. Como consequência disso, o corpo produz cortisol em excesso, gerando inflamações que impactam a saúde física e mental. Susan defendeu que a empatia pode ser aprendida e treinada por meio de pequenas pausas e técnicas simples de relaxamento, sustentadas por pesquisas realizadas em Harvard e em instituições brasileiras.
Para Susan, a empatia é o fundamento que torna viável a Justiça Restaurativa, porque aproxima pessoas, reduz vieses e promove mudanças de comportamento. “A empatia é um dos recursos mais valorosos no mundo”. Ela ressaltou que o movimento da Justiça Restaurativa representa uma mudança de época porque abre caminho para uma sociedade mais empática. “Não é apenas um movimento humanista, mas uma necessidade histórica para transformar relações, reduzir conflitos e fortalecer a cultura de paz”, concluiu.
Painéis
Em seguida, o juiz Alexandre Takaschima conduziu o painel Construindo o Futuro, que reuniu experiências legislativas municipais em diferentes fases de implementação. A advogada Aline Soares Velho Corrêa apresentou a experiência de Navegantes. Já a juíza Karina Muller e a promotora Caroline Cabral Zonta detalharam o trabalho realizado em Camboriú. Por fim, a advogada Andréia Miyoshi Costa Kochi expôs o modelo adotado em Barueri, em São Paulo. Cada uma delas destacou os desafios, os aprendizados e as perspectivas para o fortalecimento das práticas restaurativas em suas cidades.
Um dos pioneiros da prática restaurativa em Santa Catarina, Takaschima afirmou que a realização do 3º Encontro Estadual reforça essa abordagem como um valor compartilhado por instituições governamentais e não governamentais. A proposta central, segundo ele, é criar espaços seguros de diálogo e respeito em qualquer ambiente — do fórum às escolas, igrejas e comunidades — porque, onde há ser humano, há possibilidade de práticas restaurativas. “O conflito é algo natural das relações humanas, e o diálogo pode ser a melhor ferramenta para transformar esses conflitos”. A prática restaurativa, segundo ele, oferece um olhar relacional para os conflitos, permitindo que vítima, autor do dano e comunidade busquem juntos caminhos de reparação.
A programação seguiu durante a tarde com o painel Justiça Restaurativa em Ação, que apresenta três iniciativas do Grupo Gestor em Santa Catarina: Projeto Florescer, Projeto Ciranda e o piloto Acorde, desenvolvido na Escola da Serrinha. A mediação é da professora Luana Renostro Heinen.
Facilitadores apresentaram pitches logo depois do intervalo. A roda de conversa sobre limites e potencialidades da atuação em práticas restaurativas encerra o dia, com mediação de Amanda Koerich Weber e participação de profissionais do TJSC, do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), da OAB/SC, da Secretaria Estadual de Educação e da Justiça Federal. O encontro foi promovido nos dias 27 e 28 de novembro.

