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Clube de leitura abre janelas para adolescentes do sistema socioeducativo
Clube de leitura abre janelas para adolescentes do sistema socioeducativo
Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado, participou de live com os jovens do Centro de Socioeducação de Londrina II - Foto: Divulgação
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As palavras “livre” e “livro” se assemelham na origem latina. Elas descendem de “liber” e “liberbri” (libreto), respectivamente, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Um projeto socioeducativo criado no interior do Paraná articula os dois termos e faz da leitura um exercício de aprendizagem e reflexão proveitoso para a futura liberdade entre adolescentes e cumprimento de medidas socioeducativas.

Uma vez por mês, o Clube de Leitura iniciado no Centro de Socioeducação de Londrina II (Cense II) mobiliza, em média, 30 jovens de 12 a 21 anos internados na unidade ou nos outros 16 centros de todo estado, para que leiam livros, participem de conversas em teleconferência com autores e especialistas e reflitam sobre a própria trajetória por meio de obras (fictícias ou não) que tratem, por exemplo, de racismo, questões étnicas, relações entre gêneros e entre pessoas de gerações diferentes.

O projeto é um dos vencedores da primeira edição do Prêmio Prioridade Absoluta, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na categoria Poder Público – entidade do Poder Executivo (administração direta da esfera estadual).

Iniciado em março de 2020, quando começou a adoção de medidas de distanciamento social por causa da pandemia da Covid-19, o Clube de Leitura já recebeu escritores como o rapper Edi Rock, do Racionais MCs, um dos autores do livro Sobrevivendo no Inferno, homônimo do álbum lançado na década de 1990 pelo grupo; e Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado, vencedor naquele ano do prêmio Jabuti (literatura brasileira) e do prêmio Oceanos (literatura em língua portuguesa).

Torto Arado

“Foi muito marcante quando os meninos leram Torto Arado”, destaca a psicóloga Thayane Carolina de Almeida Rodrigues, da equipe do Clube do Livro. “É um livro difícil, usa uma linguagem metafórica, e é muito diferente do que eles tinham contato. O esperado é que eles desistissem da leitura, mas os meninos insistiram na leitura, ficaram curiosos e muito surpreendidos do autor querer falar com eles.”

Para Thayane Carolina, o contato externo ajuda a mudar a visão sobre a socioeducação. “Numa época em que prevalecem discursos em favor da redução da maioridade penal, ou coisas como ‘bandido bom é bandido morto’, mostrar esse espaço para outras pessoas é muito significativo. Por causa do interesse pelo projeto, muitas pessoas que não conhecem o sistema socioeducativo passaram a compreender o que é feito dentro das instituições, o que acontece quando se priva a liberdade de um adolescente.”

A psicóloga acrescenta que “a leitura abriu a possibilidade dos jovens ocuparem outros lugares de fala, de serem reconhecidos e de exporem ideias diferentes dos demais, de aprender a ter flexibilidade, de praticar a escuta e também ter sua fala de interpretação do livro”.

Papo direto

Quando não conseguem trazer o autor da obra, o Clube de Leitura convida quem possa falar do livro. Assim, uma advogada paquistanesa conversou com os adolescentes sobre o livro Eu sou Malala, de Malala Yousafzai. Uma contadora de histórias tratou do conto “O que as mulheres mais desejam?” do livro Era uma vez uma família…, escrito pela psicoterapeuta norte-americana Jean Grasso Fitzpatrick. E duas pessoas que trabalham no sistema penitenciário do Paraná falaram sobre Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella.

“A gente procura as pessoas pelo Instagram”, conta a assistente social Andressa Ferreira Cândido, criadora do projeto, sobre o esforço de a cada 30 dias trazer um convidado diferente para tratar de um tema de interesse dos adolescentes.

Apesar de ser uma conversa a distância, o papo é direto. Os meninos e as meninas leem os livros, “chegam afiados”, preparam materiais e discutem com as professoras sobre o que leram. “O projeto tem um caráter afetivo de horizontalidade, de colocar os meninos com as pessoas que eles nunca teriam acesso. Os nossos garotos só são vistos quando cometem um crime”, relata Andressa Cândido.

O Clube de Leitura acontece às sextas-feiras, uma vez por mês. Nas semanas seguintes, outras atividades acontecem, também por meio de lives, como as oficinas de rap, aulas de musicalização – com a participação de músicos brasileiros que vivem no exterior -, ou mesmo entrevista em que os jovens fazer perguntas diretamente a juízes, promotores e defensores públicos.

A mobilização é feita em rede. Na teleconferência, adolescentes de diferentes unidades conhecem outros jovens na mesma situação, mas em outra parte do estado. “A gente jamais pensou que os meninos pudessem se contatar”, avalia Andressa que acredita que haja ganho pessoal e profissional entre os técnicos de todas as unidades. Segundo ela, as equipes de dos diversos centros passaram a ter atitude mais colaborativa.

Potencial extremo

Segundo a assistente social, os adolescentes “são meninos que têm potencial extremo, vivem nas piores condições e podem se sobressair”. “O estudo e o livro despertam possibilidades.”

A professora de português do Cense II, Angelita Martins Siqueira, que trabalha na equipe do Clube do Livro, não cria expectativa sobre o desempenho futuro de qualquer aluno, mas acredita que a leitura transforma as pessoas. “O que acontece com quem leu mais de 100 livros?”, pergunta. “Ele não pode ser a mesma pessoa, alguma coisa é transformada.”

Ela rememora que conheceu um menino na unidade que já leu mais de 300 livros. “Talvez se torne um bom pai, talvez o filho dele não reproduza a violência que ele sofreu e praticou. Minha intenção é abrir uma janela, se levarem para a vida deles, ótimo. Não sei se saem leitores, mas saem transformados. Pode tornar-se leitor sem voltar aos bancos escolares.”

“Os livros abrem horizontes, ensinam a pensar, ensinam a falar, trazem ideias. É fundamental para a formação humana. Abrem os olhos e a mente. Trazem experiências novas e a possibilidade de entrar em mundos que a gente nunca entraria se não fosse através da leitura”, concorda a psicóloga Thayane Carolina. Para ela, “os livros não são só importantes por causa da aquisição da leitura, mas pelos temas que trazem para a vida”.

Tráfico de livros

A professora Angelita Siqueira começou a dar aula com 14 anos. Além do magistério, é formada em direito, passou pela área jurídica da Secretaria de Educação do Paraná. Em 2012 voltou à sala de aula e aceitou o desafio profissional de lecionar na socioeducação. Ela se recorda que quando começou a trabalhar no Cense II, a leitura de livros era malvista na instituição e ela fazia “tráfico de livros” escondido para que os alunos pudessem ler.

“O Cense era um local de tortura para adolescentes e nada podia – nem cumprimentar os meninos! Não podíamos sorrir ou perguntar pelos adolescentes”, recorda-se a professora. Um dia, em audiência com a juíza da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Londrina, Claudia Catafesta, ela revelou à magistrada que precisava fazer tráfico de livros dentro da instituição.

A juíza determinou que o Cense II passasse a ter uma biblioteca. Angelita Siqueira organizou o espaço com apoio de um colega que estudava biblioteconomia, usando um acervo remanescente guardado em caixas, e com novos livros doados – inclusive por ela. A biblioteca, batizada como Capitães de Areia, em referência à obra de Jorge Amado, começou a funcionar em fins de 2019, alguns meses antes de ter início o Clube de Leitura.

Nessa transição, Amarildo de Paula Pereira assumiu a direção do Cense II e deu apoio ao funcionamento da biblioteca. “O que fiz foi adequar um novo espaço, mais amplo, arejado e convidativo a visita dos adolescentes, estabelecer uma rotina semanal para as trocas dos livros e diversificar os títulos das obras a disposição nas prateleiras. Meu sonho é que a biblioteca Capitães de Areia se torne o coração da unidade.”

Para o diretor, a rotina da leitura é benéfica aos jovens e ao funcionamento da instituição. “O grande problema nas instituições fechadas é o tempo ocioso. Há um esforço imenso das equipes, para que os adolescentes permaneçam o maior tempo possível em atividade, sejam elas, formativa ou recreativa”, conta Amarildo Pereira.

De acordo com ele, “há o momento em que os adolescentes são recolhidos ao alojamento e consequentemente encontram-se com tempo ocioso, aquele que passou pela biblioteca tem a sua disposição o livro”. “Estatisticamente, os adolescentes que desenvolveram o hábito de ler, comentem menos falta disciplinar.”

Gilberto Costa
Agência CNJ de Notícias

Essa matéria faz parte de uma série que apresenta os projetos vencedores da primeira edição do Prêmio Prioridade Absoluta, anunciados em dezembro de 2021.

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